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domingo, 18 de outubro de 2009

Psicopatas `leves´ pesam muito

por Bel Cesar


"Quem não conhece um "leve" psicopata? Depois de ter lido o livro "Mentes Perigosas", da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, você vai ver que conhece, e muitos!

Eles são narcisistas, egocêntricos. Pensam muito e sentem pouco. Tomam decisões a partir de como podem ser beneficiados com prazer, auto-satisfação, poder, status e diversão.
Além de terem o prazer no "errado", isto é, de nadar contra a corrente, facilmente se ofendem e tornam-se violentos, pois não suportam contrariedades. São sempre vítimas.

Intolerantes ao tédio ou a situações rotineiras, os psicopatas buscam situações que possam mantê-los em um estado permanente de alta excitação. Por isso, evitam atividades que demandam grande concentração por longos períodos. Compromissos e obrigações nada significam para eles.

Naturalmente, pessoas assim não são confiáveis. Eles mentem, manipulam e chantageiam sem a menor dificuldade. Inteligentes, manipuladores, especializados no assédio psicológico, sabem convencer os outros. Eles conhecem as fraquezas alheias, apesar de não serem capazes de sentir o que os outros sentem.

Um dado importante: todo psicopata, de grau mais leve ou mais alto, tem consciência de seus atos, mas não sente a dor que causa nos outros, porque simplesmente seu cérebro não funciona assim.

Vamos compreender isso melhor. A grande maioria dos seres humanos é formada de empáticos: o sofrimento alheio provoca dor neles mesmos, o que os leva a tentar ajudar seus semelhantes. Ajudar o outro é uma forma de aliviar a dor que este lhes causa. Desta forma, nosso cérebro nos leva a ter comportamentos que garantem a harmonia social.

De modo simples e didático, podemos resumir nosso cérebro em duas importantes áreas: o sistema límbico (a sede das emoções) e o lobo frontal (sede do raciocínio).

Uma pessoa empática é capaz de ter ações compassivas e socialmente adequadas pois, como seu sistema límbico é ativado por emoções básicas, como raiva e medo, ele envia sinais para o lobo frontal onde são ativadas as áreas responsáveis pelos aspectos cognitivos - frios e racionais, assim como o julgamento moral.

Estudos comprovam que 4% da população mundial sofre de um déficit nos circuitos do sistema límbico, que deixa de transmitir, de forma correta, as informações para que o lobo frontal possa desencadear comportamentos adequados. Ou seja, chegam menos informações do sistema afetivo para o centro executivo do cérebro. Assim, o lobo frontal, sem dados emocionais, prepara um comportamento lógico e racional, mas desprovido de afeto. Por isso, eles têm consciência de seus atos, mas não sentem a dor que causam nos outros!

Desta forma, os psicopatas não sentem medo nem ansiedade: parecem imunes ao estresse. Permanecem calmos em situações que fariam muitas outras pessoas entrar em pânico. São indiferentes à ameaça de punição. Eles têm até dificuldade de reconhecer medo e tristeza nos rostos e nas vozes das pessoas.

Uma vez que admitimos que uma pessoa é assim, biologicamente incapaz de se responsabilizar por suas ações, ficamos atônitos. Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, estas pessoas nascem assim e irão morrer assim. Então, desista de querer mudá-los!
Mas, como lidar com eles? Como sentir compaixão por estas pessoas capazes de ferir e destruir a vida de tantas outras pessoas?

Tenho pensado bastante sobre isso. Em primeiro lugar, creio que seja importante admitirmos que certas pessoas são mesmo assim. Não precisamos rotulá-las de psicopatas, associando-as com pessoas criminosas e intencionalmente agressivas. Apenas reconhecer que certas pessoas são mesmo um pouco assim.

Um pouco é um dado relevante. Reconhecer este pouco já vai nos ajudar muito! Pois passaremos a investir nos relacionamentos com uma moeda de troca mais real e coerente.

Por exemplo, quando alguém nos mantém refém de suas promessas. Parece que o melhor está sempre por vir e que cabe a nós, tão somente a nós mesmos, saber conter nossa ansiedade, nos responsabilizarmos pelos danos da espera e "confiar neles". Como pessoas empáticas, não somos impulsivos. Mas, quando as promessas revelam-se mecanismos de controle para manter a situação vigente, devemos abrir os olhos!
Nestes casos, segue aqui um conselho: não confunda o que uma pessoa diz ter para oferecer, com ela mesma. Sua capacidade de realizar o que diz não é real!

Portanto, a primeira coisa a fazer é ajustar a intenção com que as promessas são reveladas, com a realidade concreta dos fatos. Uma vez recuperada a lucidez de nossa real situação, temos que nos preparar para olhá-la sob uma nova perspectiva. Como diz o velho ditado: "mais vale um pássaro na mão do que dois voando".

Pare e reflita. Você está sendo refém de alguma promessa manipuladora? Caso a resposta seja sim, calma. Mesmo consciente de sua limitação, será preciso ir aos poucos. Procure ajuda daqueles que souberam reconhecer e superar relacionamentos semelhantes. Uma vez livres de tal jogo sedutor, poderemos ter compaixão por eles. Mas, antes disto, é preciso nos curar.

Lembre-se, eles não mudam e não será você que irá provar o quanto é boa e capaz ao tentar mudá-los!"

Fonte: STUM

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A diferença em cobrar e receber amor

:: Bel Cesar ::

Todos nós conhecemos a necessidade de amar e ser amado. No entanto, quando esta necessidade se torna carência, há algo extra a ser alertado: estamos vulneráveis e desequilibrados.

A origem da carência afetiva encontra-se em nossa dificuldade para receber amor. É como estar com fome e não ter estômago para digerir. Mas, como será que nosso "estômago afetivo" tornou-se tão pequeno? Fomos nos alimentando cada vez menos, à medida em que o alimento emocional tornou-se escasso ou invasivo.

Em outras palavras, fomos instintivamente diminuindo nosso estado de receptividade ao associar a experiência de receber amor a vivências de insuficiência, abandono ou de um controle excessivo. Se nos sentimos manipulados ao receber alimentos, presentes, elogios, carícias e incentivos, associamos a idéia de receber com o dever de retribuir algo além de nossa capacidade ou vontade pessoal. Quem não se lembra de ter escutado advertências como: "Agora você já deve se comportar como um menino grande" ou "Se você comer todo jantar, pode comer a sobremesa...".

Estas frases parecem inocentes, mas revelam os condicionamentos pelos quais passamos a aprender que receber modula nosso modo de ser.

Filhos de pais intrometidos e controladores desde cedo aprendem a conter seus desejos, pois sabem que ao revelarem suas intenções acabarão tendo que abandonar seus planos para realizar as vontades de seus pais. Para garantir fidelidade frente aos seus desejos e gostos, diferentes de seus pais e orientadores, acabam se contraindo cada vez mais - por um instinto de autopreservação, necessário no processo de autoconhecimento e autoconfiança, distanciam-se de seus pais para conhecer a si mesmos.

Desta forma, com a intenção de nos proteger do excesso ou da falta de atenção diante de nossas necessidades de amarmos e sermos amados, fomos nos fechando, isto é, formando camadas protetoras contra os ataques diante à nossa vulnerabilidade. Este processo sutil e delicado tem um efeito bastante grave: ao estar mais atento no que estou recebendo do que no que desejo, acabo aprendendo a dar mais atenção ao mundo exterior que às minhas reais necessidades.

A necessidade de ser amado faz parte de nosso instinto de sobrevivência, portanto é algo natural, enquanto seres que vivem em sociedade. Mas em nossa sociedade materialista onde autonomia é sinônimo de maturidade, muitas vezes esta necessidade é vista como um sinal de imaturidade ou infantilidade. Vamos esclarecer este preconceito: amar só se torna infantil quando se torna uma exigência unilateral: quando queremos apenas ser amados.

Estranhamente, quando quero algo do outro, deixo de perceber a mim mesmo. Quando preciso do outro, passo a controlá-lo. Então, ao invés de expressar o meu amor, passo a cobrar por atenção. No lugar de dizer que amo, digo o que falta no outro para me sentir amada.

Quantas discussões entre casais, pais e filhos estão baseadas nesta troca de intenções!

Vamos exemplificar melhor este drama. Quando o parceiro se distancia, por razões alheias à sua parceira, ela se sente abandonada. Então, no lugar de dizer: "Quero estar mais próxima de você", ela diz: "Você está distante!". Este seu modo de alertar o outro de sua carência é defensivo. Ela não está sendo aberta, nem transparente, pois detrás de sua reclamação há um desejo de controlá-lo, para que ele seja do modo como ela quer. Ele, sentindo-se pressionado, perde a espontaneidade e afasta-se cada vez mais. Ela sentindo-se carente, se torna refém da atenção dele!

Quando nos tornamos refém do comportamento alheio, deixamos de estar conectados ao nosso sentimento de amar e esperamos apenas ser amados. Em outras palavras, deixo de perceber o que estou sentindo em relação a ele e apenas me atenho ao que ele está demonstrando sentir em relação a mim. A expressão do afeto se contrai sob a pressão e gradualmente ambos perdem a espontaneidade.

Há uma diferença entre expressar claramente o que se quer e cobrar indiretamente o que se necessita. No momento em que simplesmente expresso meu desejo, desobrigo o outro de atuar. Assim, ele já não se sente mais pressionado a mudar e torna-se naturalmente disposto a retomar a relação.

Ao perceber nossas verdadeiras necessidades, desejos e intenções, liberamos o outro da carga de adivinhar o que secreta e indiretamente desejamos. Deixamos de imaginar o que precisamos e passamos a sentir nossas reais necessidades.

Este processo exige auto-observação. Muitas vezes, dar-se conta de algo que nos falta dói mais do que imaginávamos. Perceber nosso bloqueio em saber receber pode ser uma surpresa maior do que pensávamos. Mas, a cada momento que percebo uma limitação interior tenho a chance de mudar. Como?

Começando por admitir que receber é bom. Não é uma ameaça. Só a experiência pode nos afirmar o que queremos ou não. Precisamos aprender a sermos sinceros com nossas necessidades frente aos desejos alheios. Isso ocorre quando nosso sim é um sim verdadeiro.

Não precisamos deixar de ser quem somos ao receber algo intencional de outra pessoa. Não precisamos usar máscaras sociais comportando-nos como é esperado de nós. Nem nos sentirmos insuficientes e inadequados se não estivermos em condições de retribuir. Podemos ser autênticos!

Nos sentimos amados quando o outro nos aceita tal como somos. Portanto, dar amor é abrir-se para receber o amor que o outro tem para lhe dar. Dar um espaço de si para acolher o outro em seu interior.


Bel Cesar é terapeuta e dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções e Mania de sofrer pela editora Gaia.
Visite o Site
Email: belcesar@ajato.com.br

Fonte: STUM

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Encarar a Violência para ter Paz

:: Bel Cesar ::

Ontem, recebi um e-mail de uma amiga contando uma fato trágico, que infelizmente tornou-se "mais um". Ela escreveu: "Hoje tive um dos dias mais tristes da minha vida. Uma funcionária muito querida perdeu o marido de uma forma trágica: assalto à mão armada durante o trabalho. A perda foi totalmente inesperada, embora, que aqui nesta cidade, a gente viva esperando que essas coisas nos aconteçam de uma hora para outra. Mãe de três filhos, sendo um de apenas 3 anos, esta mulher trabalha super bem, nunca faltou, nunca nos deixou na mão e sempre brincamos sobre a paixão que demonstrava sentir pelo marido. Ainda ontem ela brincava que ia tentar fazer um passeio surpresa com ele, mas a surpresa veio antes desta possibilidade. Surpresa que -confesso-, não me surpreende. Faz tempo que não consigo mais viver confortavelmente em São Paulo".

É difícil ler, escutar e reconhecer o quanto este depoimento toca diretamente a todos nós. Quando penso se isso acontecesse comigo, logo penso que enlouqueceria. Ontem, conversando com meu filho Lama Michel sobre este fato ocorrido, ele ficou em silêncio. De fato, parece que nada nos consola num momento como este. Depois, comentei que achava que não suportaria uma dor destas e ele retrucou que sim. Mudamos de assunto, mas o tema permaneceu em minha mente, senti vontade de me recolher, de ficar quieta, mas as atividades do cotidiano naturalmente nos levam a seguir em frente. No entanto, durante todo o dia, carreguei a sensação de desproteção e tristeza como uma forma de me abrir para o que esta experiência tem a me ensinar.

Aos poucos, comecei a mudar o foco de minhas reflexões, até que consegui encarar a idéia de olhar este fato como mais um chamado para aceitar a inevitabilidade da morte. Afinal, faz parte de nosso desenvolvimento interior encarar os fatos de frente, cara a cara. Isso não quer dizer nos tornarmos frios diante do ocorrido, nem descrentes de que "não há nada a fazer", mas simplesmente nos abrirmos para acolher o sentimento mais vulnerável de todo ser humano: a dor diante da morte.

Lembrei da história de um discípulo que havia pedido ao seu mestre que lhe ensinasse a se preparar para lidar com sua própria morte. Os anos se passaram. Ele viu o noticiário da morte de milhares de pessoas durante um terremoto. Ele pensou: "Coisas da natureza". Depois, morreu seu vizinho. Ele pensou: "Coitado". Em seguida, morreu sua antiga e fiel cozinheira. Ele pensou: "Vou sentir falta dela". Até o dia em que se deu conta de que estava morrendo, e evocou seu mestre: "Você não me disse que ia me preparar para lidar com esse momento?". E o mestre respondeu: "Primeiro, te levei a ver a morte de milhares de pessoas, mas você não viu a sua. Depois, o seu vizinho. Você não viu a sua. Pensei que a perda da sua cozinheira o ajudaria a reconhecer a inevitabilidade da morte, mas mesmo assim você não encarou a sua. Bom, achei então que o método mais eficaz para ajudá-lo a encarar a sua morte seria a experiência direta com seu próprio processo de morte. Creio que só agora você está receptivo para aprender o que havia me pedido há tantos anos".

E assim vai. Quando minha mãe esteve gravemente doente e achei que ela fosse morrer, a mãe de minha amiga estava bem. Minha mãe superou sua crise e a mãe de minha amiga faleceu. Temos todos os dias oportunidades para encarar a finitude desta vida.

Acompanhando pacientes que enfrentam a morte, o processo terminal de pessoas queridas e a dor da perda daqueles que nem conheço (como a tragédia que atingiu a funcionária de minha amiga), volto sempre para o mesmo ponto: quanto mais significativa se torna esta vida, menos arrependimento temos de não tê-la aproveitado e, assim, parece possível aceitar melhor nossa própria morte.

O Budismo nos ensina que a satisfação é o antídoto do apego. Neste sentido, estar satisfeito com a vida que levamos nos ajuda a nos desapegar do passado e a seguir em frente, até mesmo em direção à inevitabilidade de nossa própria morte.

Creio que, de imediato, esta reflexão não possa ajudar àqueles que estão lidando com o impacto de tragédias de uma morte inesperada e violenta, pois a dor da perda ainda precisa ser suavizada. Mas para nós, que escutamos as notícias das tragédias "alheias", podemos nos aproximar e dedicar um minuto de silêncio para aqueles que estão lidando diretamente com a dor da violência. Desta forma, algo acontece, dentro e fora de nós. Assim como Lama Gangchen nos fala tantas vezes: "As pessoas do século XXI precisam ser educadas a manter uma mente pacífica, de modo que possam agir de forma não-violenta a todo momento e em qualquer situação. A paz é sem dúvida o melhor investimento para nós, para a comunidade global e para as futuras gerações".

Bel Cesar é terapeuta e dedica-se ao atendimento de pacientes que enfrentam o processo da morte.
Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções e Mania de sofrer pela editora Gaia.
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Todos os textos de Bel Cesar são publicados com sua autorização.
Fonte: STUM

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